Ainda na adolescência, José Marcos Campos chegou ao Assentamento Munguba, em Porto Grande (AP). Desde então ele acompanha de perto a vida da comunidade.

Se passaram 26 anos. Hoje, com 44, José lidera a Associação de Produtores Rurais do Assentamento do Munguba (APRM).

A associação foi formalizada em 2021, com o objetivo de organizar os produtores e buscar caminhos para acessar políticas públicas. José participou desse processo desde o início, primeiro como vice-presidente e, depois, como presidente.

No assentamento, os produtores trabalham com uma diversidade de produtos, como açaí, polpas de frutas, farinha, peixe e carnes. Cada produtor comercializa sua própria produção, enquanto a associação busca criar condições para avançar na organização coletiva e ampliar as possibilidades de comercialização conjunta.

A trajetória, no entanto, é desafiadora.

“Não é fácil a gente ser liderança de um assentamento”, conta José. Entre os principais obstáculos, ele destaca a burocracia e as dificuldades para acessar políticas públicas. Ao longo do caminho, a própria associação passou por mudanças. O grupo diminuiu, mas, para José, também se fortaleceu.

Foi nesse processo que o Projeto Enraizando, desenvolvido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria também com o Instituto Terroá, passou a fazer parte da trajetória da associação. 

Por meio do projeto Enraizando, a associação participa de atividades de assistência técnica e institucional junto aos parceiros, combinando formação, acompanhamento e apoio às demandas do dia a dia.

Para José, essa presença fez diferença.

“Isso nos deu força, nos deu gás para continuar, porque senão já tinha desistido.”

O acompanhamento envolve orientações sobre a documentação da associação, do CNPJ ao estatuto, por exemplo, e o esclarecimento de dúvidas e suporte diante das situações que surgem no cotidiano. É uma parceria que está na produção, na logística, na comercialização e na gestão organizacional como um todo.

Para José, ter profissionais próximos, atentos às necessidades da organização, também significou ter a quem recorrer diante das dificuldades.

“Os profissionais do Terroá trazem ensinamento pra gente que a gente nunca teve naquela comunidade”, afirma.

Mas os aprendizados vão muito além da relação entre o IEB, Terroá e a APRM. 

Para José, uma parte importante da experiência está justamente na possibilidade de conhecer as outras associações, as outras realidades e trocar conhecimentos.

A cada encontro do projeto, ele volta para Munguba com novas ideias e mais ânimo para compartilhar com os demais produtores. “Eu levo esse conhecimento da minha comunidade, o aprendizado de cada encontro eu levo para eles.”

Esse olhar também aparece nos sonhos de José para o futuro. Mais do que fortalecer a associação, ele quer ver a comunidade avançar, gerar renda, agregar valor à produção e conquistar mais autonomia.

Um dos caminhos está na construção de uma casa de beneficiamento, um sonho que, segundo ele, já está a caminho de se tornar realidade com o apoio do projeto. A estrutura poderá contribuir para agregar valor à produção e abrir novas possibilidades para a comunidade.

Para José, pensar nesses caminhos é pensar no conjunto do território.

“A gente já tem paz. Falta agregar a comunidade a ser livre, a trabalhar, a ter o seu próprio dinheiro… fortalecer a economia da comunidade”, afirma.

Depois de tantos anos vivendo em Munguba, sua relação com o território se mistura à própria história de vida. Por isso, liderar a associação também significa contribuir para que a comunidade prospere e construa seus próprios caminhos.

É por isso que José continua. Sua mensagem para outras pessoas que também assumem a missão de liderar organizações comunitárias é “Não desistir. Tudo é possível e a gente só basta a gente querer. (…) O grupo unido jamais será vencido.”

No Projeto Enraizando, essa disposição para continuar encontra espaço para a troca, o acompanhamento e a construção coletiva de novos caminhos. 

E, a cada encontro, José volta para Munguba com algo a compartilhar, pensando em como a produção pode ir além do cercado de cada produtor. Ele luta para ver a comunidade, e não só o assentamento, prosperar em conjunto.