No Bailique (AP), a trajetória de uma agente de saúde, parteira e cosmetóloga conecta a valorização dos saberes locais à criação de novas oportunidades para os jovens.

A casa de Guimar Silva foi levada pelo rio depois de uma erosão, na comunidade de Macedônia, no arquipélago do Bailique, no Amapá.

Com ela, desapareceram também as plantas medicinais que cultivava e um lugar que hoje já não reconhece como antes. 

“As primeiras vilas foram tudo pra água, tudo pro rio”, conta. A perda da própria moradia foi decisiva para que ela deixasse a região e pedisse transferência do trabalho.

Além de comprometer moradias e a vegetação, a erosão altera os caminhos percorridos pela população e dificulta o deslocamento entre comunidades, inclusive em situações que exigem atendimento de saúde.

Foi nesse território, marcado por desafios e por uma relação cotidiana com a floresta e os rios, que Guimar construiu uma trajetória dedicada ao cuidado com as pessoas e à valorização dos conhecimentos locais.

Aprender com as plantas e com a comunidade

O interesse de Guimar pelas plantas medicinais aumentou quando ela passou a atuar como agente de saúde, no início dos anos 2000. 

No trabalho com as famílias ribeirinhas, visitava 19 núcleos familiares e percorria longas distâncias remando. 

Era um contexto de acesso limitado a serviços, em que ela assumia diferentes responsabilidades no cuidado com a comunidade.

“Lá onde eu morava, eu era parteira, eu era enfermeira, eu era agente de saúde, eu era tudo, porque não tinha lá onde eu morava. Então, fazia de tudo por aquele povo”. 

Guimar aprendeu a ser parteira com outras mulheres da região. “Eu conheço muitas meninas que são netas e filhas de parteiras, o legado vai passando de uma para a outra.”

“Eu fazia parto com a dona Mariza, ela era excelente, e já não enxergava mais. Mas ela sabia e ia me ensinando assim mesmo”.

E Guimar sempre buscou aprender mais. A aproximação com outras iniciativas de formação e a troca de conhecimentos ampliou o que ela já sabia sobre as plantas e suas aplicações. 

Em uma oficina comunitária, aprendeu a identificar espécies, conhecer seus usos e preparar produtos. Mais tarde, participou de outra formação, em São Paulo, onde aprendeu a produzir sabonetes, perfumes, óleos e pomadas. 

A partir dessas experiências, continuou buscando conhecimentos e aperfeiçoando suas práticas. Hoje, produz biocosméticos e outros itens por encomenda, além de compartilhar o que aprendeu em oficinas. 

A experiência com os produtos se relaciona à riqueza da biodiversidade amazônica e às possibilidades de aproveitar os recursos locais. “Eu acho importante essa situação, porque o nosso estado ali é um estado muito rico de coisas boas, né? E eu gosto de tirar da floresta mesmo” – conta. 

Sua trajetória como parteira também revela a importância dessa troca entre conhecimentos. 

Guimar aprendeu com mulheres mais experientes e reconhece que a continuidade dessa prática depende da transmissão entre gerações. 

Ao mesmo tempo, sua formação como agente de saúde orienta decisões sobre os cuidados com as gestantes, inclusive quando identifica situações que exigem acompanhamento especializado.

Da experiência à troca com os jovens

Carregando essa bagagem, Guimar chegou à Escola Família Agroextrativista do Maracá (EFAEXMA), onde ministrou uma oficina de biocosméticos para estudantes do projeto Educação para a Resiliência às Mudanças Climáticas em Escolas Rurais da Amazônia Brasileira. 

Durante a atividade, compartilhou técnicas de produção e orientações para que os jovens pudessem experimentar e dar continuidade ao aprendizado.

Sua proposta era ensinar o processo e, em seguida, deixar que os próprios estudantes colocassem a mão na massa. “Eu ensino a primeira parte, na segunda parte eles que vão fazer. Eu só vou falar: ‘Olha, é assim’”, relata. “Se eles forem para frente, eles conseguem, porque não é difícil ensinar pro adolescente. Acho que pra ninguém que se interessa não é difícil”. 

Ela acredita que, com os conhecimentos compartilhados e as orientações sobre materiais e fornecedores, os jovens podem seguir aprendendo e produzir por conta própria.

Mais do que ensinar a confeccionar sabonetes e perfumes, a atividade aproximou os estudantes de conhecimentos e práticas relacionados à sociobiodiversidade amazônica. 

A experiência também abriu espaço para conversar sobre possibilidades de geração de renda a partir de produtos que valorizam os recursos e os saberes locais.

Em recado aos jovens, Guimar resumiu o que considera importante nessa experiência: “É muita satisfação a gente fazer o nosso produto e vender. Quanto mais conhecimento a gente tem, mais dinheiro a gente ganha, mais amizade com os outros a gente consegue”.

Para ela, o conhecimento pode abrir caminhos tanto para o trabalho quanto para a criação de novas relações.

Conhecimentos que seguem adiante

Ao compartilhar o que aprendeu ao longo da vida, Guimar dá continuidade a uma trajetória marcada pela troca de saberes e experiências. 

Assim como outras mulheres contribuíram para sua formação, ela agora apresenta aos jovens possibilidades de aprender, experimentar e desenvolver suas próprias iniciativas.

Essa circulação de conhecimentos é essencial onde as mudanças climáticas afetam diretamente a vida das comunidades. 

Quando a erosão leva uma casa, também pode comprometer os espaços de cultivo e as condições de transmissão de práticas construídas ao longo do tempo. 

Preservar e compartilhar esses conhecimentos, portanto, é também reconhecer o valor das pessoas que os mantêm vivos.

No projeto Educação Climática na Amazônia, a oficina de Guimar mostra como a aprendizagem pode partir das experiências de quem vive no território e dialogar com as perspectivas das novas gerações. 

Sua história reúne cuidado, curiosidade e disposição para ensinar, lembrando que os conhecimentos locais também podem inspirar novas formas de produzir e criar oportunidades sem perder de vista as relações com a floresta e a comunidade.

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Este projeto é apoiado pelo programa IKI Small Grants, que fortalece soluções locais para uma ação eficaz em clima e biodiversidade. O IKI Small Grants faz parte da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) da Alemanha. É financiado pelo Governo Federal Alemão e executado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.