Encontro reuniu 210 estudantes, professores e representantes de cinco escolas para celebrar a jornada de aprendizados, produção e protagonismo na construção de soluções para os desafios climáticos da Amazônia
Depois de dois anos de atividades, oficinas, experimentações, produção de conteúdos e aprendizagens, estudantes e professores de cinco escolas de Macapá, Santana e Mazagão, no Amapá, se reúnem em Macapá para o intercâmbio final do projeto Educação para a resiliência às mudanças climáticas em escolas rurais da Amazônia brasileira.
O evento marca uma etapa importante de uma jornada que aproximou a educação climática da realidade dos territórios e colocou os jovens no centro da construção de conhecimentos, narrativas e soluções diante da crise climática e de seus impactos na vida das comunidades da região. As cinco instituições participantes foram:
- Escola Estadual Evilásio Pedro de Lima Ferreira;
- Escola Estadual João Maciel Amanajás;
- Escola Estadual Osvaldina Ferreira da Silva;
- Escola Família Agroextrativista do Carvão;
- Escola Família Agroextrativista do Maracá.
O encontro também contou com a presença de instituições parceiras que acompanharam e contribuíram para a trajetória do projeto, entre elas a Secretaria de Estado da Educação do Amapá (Seed), a Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e a Universidade Federal do Amapá (Unifap). A participação dessas instituições reforçou a importância da articulação entre escolas, poder público e universidades para ampliar o diálogo sobre educação climática e fortalecer iniciativas construídas a partir das realidades dos territórios amazônicos.
Da sala de aula para o território

Durante a jornada, que começou em 2024, as escolas participaram de oficinas e atividades práticas que estimularam a reflexão sobre os impactos das mudanças climáticas e suas relações com os modos de vida amazônicos. As formações trabalharam temas como comunicação, equidade de gênero e protagonismo juvenil, criando espaços para que os estudantes desenvolvessem suas próprias narrativas sobre os territórios onde vivem. Paralelamente, o projeto promoveu reflexões com as escolas sobre seus Projetos Político-Pedagógicos (PPPs), buscando identificar caminhos para incorporar a abordagem das mudanças climáticas ao planejamento e às práticas pedagógicas.
As experiências reforçaram uma perspectiva central do projeto: os jovens que vivem na Amazônia não são apenas cidadãos que precisam aprender sobre mudanças climáticas.
Eles também produzem conhecimento, identificam problemas, constroem soluções e têm o direito de participar das discussões sobre o futuro de seus territórios.
Um dos resultados desse processo foi a produção de conteúdos pelos próprios estudantes, incluindo criações de modas inspiradas na cultura amazônica, fotografias , podcasts, minidocumentários sobre questões ambientais de seus territórios, produtos da sociobioeconomia, incluindo a crise climática e os impactos que transformam os territórios. Em uma das etapas, por exemplo, os jovens foram convidados a transformar suas pesquisas e descobertas em narrativas capazes de despertar o interesse de outras pessoas.
Foi o caso da estudante Cibelli Silva da Escola Estadual João Maciel Amanajás. Em seu relato de experiência, ela destacou os impactos da erosão no território e como o projeto a incentivou a abordar o tema por meio de um podcast junto com sua turma. “Falamos sobre a erosão que vem afetando a nossa comunidade. Já perdemos várias escolas, posto de saúde, casas, terrenos e a renda também é impactada.” Sem a perspectiva de justificar o processo de erosão enquanto um resultado das mudanças climáticas, os jovens foram convidados a perceber como as transformações do clima e eventos extremos podem impactar e agravar desafios já recorrentes em seus territórios.
A preparação para os pitchs também fez parte desse percurso. Os estudantes aprenderam a apresentar suas ideias de maneira objetiva, clara e autêntica, partindo de perguntas, descobertas e experiências vividas durante o projeto.
Um encontro para celebrar a jornada
O dia do intercâmbio, portanto, criou um espaço coletivo para compartilhar memórias, experiências e aprendizados construídos ao longo do projeto.
A programação combinou momentos de integração, apresentações culturais e atividades de convivência entre as delegações. Ao longo do dia, estudantes e professores também puderam revisitar o percurso realizado pelas escolas e refletir sobre o que levam dessa experiência para seus territórios.
Um dos destaques do intercâmbio foi a Mostra “Soluções Jovens para o Clima”, em que os estudantes das cinco escolas apresentaram os trabalhos de multiplicação desenvolvidos durante o projeto.
As apresentações também foram acompanhadas por uma banca de avaliação, em um exercício que mobilizou a capacidade dos jovens de comunicar suas ideias e compartilhar os conhecimentos produzidos durante o projeto.
Ao final, as cinco escolas foram reconhecidas em diferentes categorias, celebrando a diversidade dos caminhos encontrados por cada comunidade para pensar e agir diante das mudanças climáticas.
Inovação e Soluções Sustentáveis – Escola Família Agroextrativista do Carvão
Arte e Sensibilização Climática – Escola Evilásio Pedro Ferreira
Comunicação e Vozes da Juventude – Escola João Maciel Amanajás
Território, Memória e Identidade – Escola Osvaldina Ferreira da Silva
Multiplicação e Mobilização Comunitária – Escola Família Agroextrativista do Maracá
Para a professora Íni Palheta, da Escola Família Agroextrativista do Carvão, o protagonismo dos estudantes ganha ainda mais importância diante das dificuldades de visibilidade enfrentadas pelas escolas rurais.
“Essas escolas, na realidade, são muito inviabilizadas dentro do estado. Principalmente quando acontecem mostras científicas, a maior parte dos participantes são escolas urbanas ou periurbanas. As escolas rurais acabam não tendo vez.”
Segundo ela, por meio do intercâmbio, o projeto criou oportunidades para que esses estudantes apresentassem seus conhecimentos e iniciativas, como a produção de cosméticos e biojoias, conectadas à soluções para o enfrentamento da crise climática e às realidades de seus territórios. “A voz dos estudantes é muito importante porque eles estão falando sobre a realidade que vivem.”
O fim, não: um novo começo
Por mais que o evento marcasse a finalização do projeto, ele mostrou que a educação climática é um processo contínuo. Ela pode abrir caminhos para que os conhecimentos produzidos nas escolas ultrapassem seus muros e encontrem outros territórios onde fazem sentido.
Ao reconhecer o olhar, a criatividade e a capacidade de ação das juventudes amazônicas, a jornada deixa como legado não apenas os trabalhos desenvolvidos, mas também novas possibilidades de aprender, dialogar e construir respostas aos desafios que já fazem parte da vida desses territórios.
Afinal, quando o aprendizado se transforma em ação, ele não termina com o fim de um projeto: continua nas pessoas, nas escolas e nas comunidades que fazem parte dessa construção.
Segundo a gestora de projetos do Instituto Terroá, Malu Benini, esse processo também representa uma forma de atuação baseada na construção conjunta com os territórios e no reconhecimento dos saberes de quem vive neles.
“Para o Terroá, fazer parte dessa iniciativa é acreditar que a educação climática ganha força quando parte dos territórios e de quem vive neles. Ao construir esse projeto junto com estudantes e professores, vimos jovens transformando suas experiências em conhecimento, narrativas e soluções. Para nós, fortalecer esse protagonismo é também contribuir para que essas vozes ocupem espaços de decisão e ajudem a construir futuros mais justos e resilientes para a Amazônia.”
Sobre o projeto Educação Climática na Amazônia
Este projeto é apoiado pelo programa IKI Small Grants, que fortalece soluções locais para uma ação eficaz em clima e biodiversidade. O IKI Small Grants faz parte da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) da Alemanha. É financiado pelo Governo Federal Alemão e executado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.