O Instituto Terroá realizou, no dia 13 de novembro, o evento “Amazônia, Cidadania e Clima: como a educação, a participação social e a sociobioeconomia podem transformar a justiça climática”, durante a COP30, em Belém.

O encontro, promovido no Espaço Teia da Gente (IEB), reuniu lideranças extrativistas, pesquisadores, gestores públicos, juventudes amazônicas e representantes da sociedade civil nacional e internacional.

A atividade integrou a programação comemorativa dos 10 anos do Instituto Terroá, reforçando o compromisso da organização com o desenvolvimento territorial.
“Foi uma celebração muito importante para o Terroá aqui com nossa equipe na Amazônia. Simbolizou para nós os 10 anos em luta ao lado das comunidades por mais justiça climática para que a transição energética seja de fato com protagonismo das comunidades tradicionais”, destaca Daniel Bellissimo, diretor institucional do Terroá.


Territórios como protagonistas da ação climática

Painelistas do evento Amazônia, Cidadania e Clima no Espaço Teia da Gente (IEB).

Um dos pontos centrais do diálogo foi a necessidade de reconhecer e fortalecer soluções que emergem diretamente dos territórios amazônicos. As comunidades locais têm sido historicamente as mais impactadas pelos efeitos da crise climática — e, paradoxalmente, as que menos contribuem para o seu agravamento, é o que declara Joaquim Belo, enviado especial da COP30 e liderança histórica do movimento extrativista.“Essa injustiça com a natureza, que também está causando esse desequilíbrio climático gigantesco, começa com cometer a injustiça com a própria comunidade que não tem nada a ver com esse prejuízo todo, mas são as mais impactadas. A valorização dessas comunidades precisa ter um reconhecimento muito forte por todos para manter a floresta em pé”.

No encontro, foi ressaltada a importância de políticas e práticas que valorizem a autonomia dos povos amazônicos, assegurem direitos territoriais, promovam a educação contextualizada e garantam condições para que as populações permaneçam e prosperem em seus modos de vida. Márcia Muchagata, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), reforçou os avanços obtidos nos últimos anos e as principais estratégias para o país seguir evoluindo. “O Brasil saiu do mapa da fome, mas ainda há o que melhorar nos índices de segurança alimentar e nutricional. E para isso lutamos de diferentes formas, uma delas é o uso das tecnologias sociais de acesso à água”.

Mila Dezan, da Secretaria-Geral da Presidência da República, destacou o trabalho desenvolvido pela entidade para engajar os brasileiros nesse debate em prol de soluções. “Nós mediamos esse relacionamento entre Governo e sociedade civil. Dentro da COP, nós entendemos que era necessário construir um processo para garantir a participação social nesse debate. O primeiro passo foi convencer os negociadores e promover encontros entre eles e os movimentos sociais”, afirma.

Para Eduardo Gresse, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, o evento teve um caráter especial ao ir além das perguntas e trazer contribuições concretas para abrir caminhos que ajudem a promover adaptação sustentável frente às mudanças climáticas. “Precisamos entender a resiliência como um conceito relacionado à transformação”, declara.

A participação das juventudes ganhou destaque ao longo do evento. Jovens de escolas públicas rurais e urbanas compartilharam percepções sobre as mudanças climáticas no cotidiano e reforçaram a urgência de incluir suas vozes nos espaços de decisão. A presença ativa desse público foi apontada como essencial para que a COP30 deixe um legado concreto para a Amazônia, com políticas voltadas à proteção dos territórios, à democracia climática e às futuras gerações, é o que defende Larissa Teles, estudante da Escola Osvaldina Ferreira da Silva e representante da juventude amazônida no painel. “Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença. A juventude amazônida acredita que o futuro depende das escolhas que fazemos hoje e que nada é para nós sem nós”.


    Livro, exposição e coquetel reforçam o protagonismo cidadão e comunitário

    Além do painel, o evento contou com lançamento de livro e exposição de fotos e vídeos produzidos pelso próprios estudantes.

    Durante o evento ocorreu o pré-lançamento do livro “Trilhas da Cidadania: estratégias de participação ativa” (Editora Senac), que sintetiza metodologias para fortalecer a cultura da democracia, de autoria de Luís Fernando Iozzi Beitum, diretor de projetos do Instituto Terroá.

    “Esse livro é uma grande colcha de muitas histórias e possibilidades que eu aprendi com muita gente. Ele está sendo gerado há 10 anos e vem de uma motivação que me tocou desde minha juventude: “Mas eu posso realmente fazer algo? É muito simbólico pra mim estar fazer [o lançamento do livro] em um evento do Terroá, uma organização em que eu pude caminhar em muitas dessas trilhas. Que essa obra possa nos inspirar a reconhecer que a participação social é fundamental para que a sociedade civil garanta que suas vozes incidam na luta pela justiça climática””, comenta o autor.

    Além do lançamento, o público pôde prestigiar a mostra de vídeos e fotos de escolas rurais e agroextrativistas da Amazônia. Para o estudante Arthur Porto, da Escola Família Agroextrativista do Carvão, a exposição foi a oportunidade de ver a trajetória e os resultados do projeto Educação Climática na Amazônia, do qual faz parte. Durante os últimos meses, os integrantes do projeto participaram de várias oficinas e têm aprimorado habilidades e competências que podem ser usadas no em prol do clima. “Fico feliz em ver que que parte das fotos expostas eu que fiz e que ajudam a contar a trajetória do projeto até aqui“, declara.

    O evento finalizou com um coquetel amazônico preparado pela Cozinha Comunitária Periférica da Vila da Barca, celebrando a sociobioeconomia e a potência dos territórios.


    Compromisso renovado

    Ao final, o Instituto Terroá reforçou que o evento representa um chamado à ação coletiva para governos, organizações, universidades e comunidades. A COP30 é vista como um marco histórico para reposicionar a Amazônia como centro de inovação climática e social — e não apenas como território impactado.

    Como legado, será elaborado um documento-síntese bilíngue com recomendações integradas a partir das falas do evento, destinado a orientar iniciativas voltadas à justiça climática no Brasil e no exterior.


    O evento reforçou uma convicção compartilhada pelo Terroá ao longo de sua trajetória: não há justiça climática sem democracia, sem educação crítica e sem participação social ativa.