Um grupo de produtores rurais do sudeste do Pará participou de um intercâmbio técnico nos municípios de Bragança e Tomé-Açu, nos dias 27 e 28 de março, no nordeste paraense, com o objetivo de ampliar conhecimentos, fortalecer práticas produtivas e identificar novas oportunidades de geração de renda no território. A atividade integrou as ações do Programa Paricá, iniciativa voltada ao fortalecimento da agricultura familiar e à promoção de soluções sustentáveis para o desenvolvimento rural.

Ao todo, 20 produtores rurais participaram da atividade, representando assentamentos e comunidades dos municípios de São João do Araguaia, Bom Jesus do Tocantins e Rondon do Pará, no sudeste paraense. A proposta do intercâmbio foi proporcionar vivências práticas e inspiradoras, permitindo que os agricultores conhecessem experiências consolidadas e modelos produtivos que possam ser adaptados às realidades de suas comunidades.

Segundo Paola Miorim, coordenadora de projetos do Instituto Terroá, parceiro implementador do projeto Co-Labora que integra o programa Paricá, os participantes atuarão como multiplicadores do conhecimento adquirido durante o intercâmbio. “Vocês são pessoas-chave para que a gente consiga disseminar esse conhecimento que vocês vão ter agora. Aproveitem esses momentos para perguntar e aprender. Quando voltarem para as comunidades de vocês, a ideia é que consigam ensinar, apoiar e compartilhar esse aprendizado com outras pessoas. Assim conseguimos multiplicar o conhecimento”, declarou na abertura da atividade.

Para muitos participantes, a experiência representou uma oportunidade de ampliar horizontes e aprender diretamente com produtores que já possuem experiências consolidadas. “Para mim, que praticamente comecei às cegas na agricultura familiar, isso tem sido um incentivo muito grande. Está abrindo muitos horizontes, trazendo conhecimento e a oportunidade de aprender com pessoas que talvez não tiveram acesso a estudos formais, mas que aperfeiçoaram muito na prática”, afirmou Agnaldo Cruz dos Santos, um dos beneficiários do programa Paricá em Rondon do Pará.

Produção de farinha e certificação em Bragança

A primeira etapa da visita ocorreu em Bragança, onde os produtores conheceram duas casas de farinha, uma que possui o selo de Indicação Geográfica – a Casa Sabor de Bragança e outra que foi reformada recentemente por meio de investimento público – a Casa de Farinha do Início do Km 08 do Senhor Tomé Reis. Durante a atividade, o grupo pôde observar de perto a estrutura necessária para a produção, compreender as exigências sanitárias e organizacionais e conhecer os caminhos para a obtenção das certificações.

A casa de Farinha Sabor de Bragança possui o selo de indicação geográfica e é referência na produção de mandioca.

Um dos momentos da visita foi a conversa com o produtor Sr. Tomé Reis, proprietário de uma das casas de farinha visitadas, que destacou a alegria de receber agricultores de outras regiões. “É muito gratificante receber essa turma aqui na nossa casa de farinha. Para a gente isso mostra que estamos no caminho certo na produção da mandioca e da farinha. A união entre os produtores é fundamental. Quando a gente trabalha em união, a gente vai longe.”

O proprietário da Casa de Farinha, Tomé Reis (de camisa verde ao centro), abriu as portas do espaço para mostrar os equipamentos e compartilhar sua experiência. Atualmente, cerca de 6 famílias produzem farinha no espaço. A visita também contou com a presença do secretário estadual de agricultura familiar Cássio Pereira.

Durante a visita, representantes do SEBRAE também apresentaram informações sobre a Indicação Geográfica da Farinha de Bragança, que reconhece e valoriza o modo tradicional de produção da região. Segundo Nayla Mesquita, do SEBRAE, o selo é uma forma de garantir a origem e agregar valor ao produto. “A indicação geográfica certifica que aquela farinha foi realmente produzida na região de Bragança e seguindo o modo tradicional de produção. O selo ajuda a garantir a qualidade e a valorizar o produtor local.”

Para os participantes, conhecer uma estrutura produtiva organizada também ajudou a refletir sobre melhorias possíveis em suas próprias comunidades. A agricultora Edna Brito, de 53 anos, que trabalha com farinha há cerca de 20 anos e atualmente reside no assentamento Ponta de Pedra, em São João do Araguaia, destacou as diferenças entre a estrutura visitada e a realidade de sua comunidade. “Para nós já está sendo muito importante conhecer uma casa de farinha assim. Lá na nossa comunidade a produção é toda manual. A gente descasca, amolece a mandioca, rala e prensa tudo no braço, sem estrutura. Aqui é tudo organizado e diferente do que a gente tem. Ver isso abre a nossa cabeça para pensar no que pode melhorar.”

Sistemas agroflorestais e visita ao viveiro central em Tomé-Açu

A segunda etapa do intercâmbio aconteceu em Tomé-Açu, referência mundial em sistemas agroflorestais. É neste município que estão os SAFs mais antigos da Amazônia iniciados na década de 60 por imigrantes japoneses.

Durante a visita a uma das propriedades voltadas à produção de açaí em sistema agroflorestal, o técnico da Embrapa, Edilson Rodrigues, destacou que o sucesso dos sistemas agroflorestais na região está diretamente ligado ao fato de ter se tornado uma política pública. “Hoje Tomé-Açu é referência em sistemas agroflorestais porque o SAF virou uma política pública no município. Quando existe esse apoio, as iniciativas fluem com mais facilidade e os produtores conseguem avançar.”

Edilson Rodrigues (camisa vermelha) levou o grupo para conhecer a diversidade de espécies cultivadas na propriedade para dar apoio à produção de açaí. Entre as espécies estão o cacau, o cupuaçu e a banana.

No município, o grupo visitou áreas produtivas com açaí e cupuaçu, além do viveiro central, responsável pela produção e distribuição de mudas para agricultores da região. Há 26 anos, o município iniciou uma política pública de incentivo ao pequeno produtor rural, por meio da distribuição gratuita de mudas. Desde então, a iniciativa se consolidou como uma estratégia permanente de fortalecimento da agricultura familiar e de recuperação produtiva das áreas agrícolas. Entre as espécies distribuídas estão açaí, cacau, cupuaçu, andiroba, freijó, ipê amarelo, ipê rosa e cumaru, entre outras. Além de promover diversidade genética e recuperação ambiental, essas mudas também ampliam as oportunidades econômicas para os agricultores familiares do município.

A visita permitiu apresentar arranjos produtivos que combinam diversificação agrícola, recuperação ambiental e geração de renda, demonstrando na prática como os sistemas agroflorestais podem contribuir para uma produção mais resiliente e sustentável. A realização contou com a parceria das secretarias de agricultura de Rondon do Pará, Tomé-Açú e Bragança. 

Sobre o Programa Paricá

Paricá – Territórios em Ação é um programa de impacto socioambiental que impulsiona o desenvolvimento sustentável na Amazônia Brasileira, fortalecendo cadeias produtivas, conservando a biodiversidade e promovendo inclusão e equidade.

Fruto da parceria entre Suzano, Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e Aliança Bioversity & CIAT, sua primeira edição atua em cinco municípios do sudeste do Pará: Abel Figueiredo, São João do Araguaia, Bom Jesus do Tocantins, Rondon do Pará e Dom Eliseu.

O programa apoia três projetos estratégicos com duração de 12 meses. O Instituto Fronteiras do Desenvolvimento (IFD) coordena o projeto Fortalecimento de Redes de Comercialização e Abertura de Mercados; a Agenda Pública implementa o Desenvolvimento Territorial Rural por Meio de Sistemas Agroflorestais; e o Instituto Terroá conduz o Projeto Co-Labora – Fomento a uma Economia Sustentável e Inclusiva.