Aos 17 anos, Ana Caroline Souza já sabe qual futuro quer construir. Quilombola, agricultora, ribeirinha e estudante da Escola Família do Maracá, em Mazagão (AP), ela cresceu cercada pelos saberes do seu território e decidiu que quer colocá-los a serviço da sua comunidade.

Onde vive, a vida acontece em conexão com a natureza. De lá vem o açaí, a bacaba, a castanha, o peixe e a agricultura que é o trabalho de tantas famílias. 

Mas Ana Caroline sabe que viver ali também significa enfrentar desafios. Entre seus maiores sonhos estão a demarcação do território, mais infraestrutura, parcerias e um olhar mais atento para as populações quilombolas, que, segundo ela, ainda recebem pouco apoio. 

Seu sonho é cursar Direito e atuar como advogada para defender pessoas de sua região. “Quero trabalhar dentro da minha comunidade”, conta. Para além da assistência jurídica, ela quer ajudar as pessoas a conhecerem seus direitos para que não sejam enganadas por falsas promessas, golpes ou situações de vulnerabilidade que ainda fazem parte da realidade da região. 

Esse caminho é incentivado pela família. Os pais apoiam seus estudos, os cursinhos preparatórios e cada oportunidade que surge para ampliar seus horizontes, incluindo a ida à COP 30, em 2025. 

Participante do projeto IKI – Educação Climática na Amazônia, Ana Caroline encontrou novos espaços para aprimorar uma consciência que já carregava desde cedo.

Ainda criança, começou a refletir sobre a importância de proteger a Amazônia ao presenciar as queimadas que atingiram sua região. Via pessoas intoxicadas pela fumaça e ela mesma sentiu dificuldade para respirar.  “Será que no futuro a gente ainda vai conseguir ver tudo isso?”, lembra de ter pensado, ao se referir a biodiversidade local.

Ao longo da formação na COP, levou para as oficinas e encontros os conhecimentos construídos em sua comunidade quilombola e, ao mesmo tempo, ampliou sua visão sobre os desafios climáticos que afetam a Amazônia.

Foi uma das expositoras do painel “A água e as escolas família”, no estande do Amapá, na Green Zone, onde contou suas vivências, aprendizados e saberes.

Durante o evento, visitou a Cúpula dos Povos, acompanhou palestras sobre diferentes biomas, como a Caatinga, conheceu iniciativas voltadas à fluvialidade amazônica e trocou experiências com pessoas de diferentes territórios. Cada encontro reforçou a certeza de que sua voz também faz parte das decisões sobre o futuro do clima. 

Agora, de volta ao Maracá, Ana Caroline quer compartilhar tudo o que viveu. Seu compromisso é conversar com colegas, familiares e moradores sobre a importância de preservar a floresta, enfrentar as queimadas e cuidar dos rios, que sofrem cada vez mais com os efeitos da seca.

Quando precisou resumir essa experiência em uma palavra, ela escolheu esperança.

Esperança de que a Amazônia continue viva. E de que as pessoas passem a enxergá-la não apenas como uma floresta, mas como fonte de vida.