Proposta do Instituto Terroá, em conjunto com os Diálogos Pró-Açaí, lançada durante a Semana do Clima da Amazônia, busca complementar instrumentos de planejamento climático com uma lente voltada às cadeias-territórios da sociobiodiversidade.

Mudanças climáticas na Amazônia: desafios urgentes nos territórios produtivos
“Hoje a gente tem uma preocupação muito grande no campo. Com essa situação climática e também com as restrições, como a proibição de perfuração de poços, muitos produtores ficam sem saber como vão manter o plantio. Como é que vai ser essa produção sem água?”
O relato é de Valdenes Souza, presidente da Cooperativa Mista Agroextrativista de Santo Antônio do Tauá (Camtauá), que reúne 56 cooperados responsáveis por coletar e beneficiar andiroba, murumuru e tucumã no município paraense de Santo Antônio do Tauá. Atualmente a cooperativa avança para outras cadeias da sociobiodiversidade como o açaí e o plantio de alimentos orgânicos. A preocupação de Valdenes traduz um desafio crescente: adaptar a produção diante dos impactos das mudanças climáticas.
Adapta SocioBio: ferramenta para adaptação climática
Durante a 2ª Semana do Clima da Amazônia, em Belém, o Instituto Terroá apresentou a primeira versão do Adapta SocioBio, um instrumento metodológico em desenvolvimento para apoiar cadeias da sociobiodiversidade na construção de respostas aos impactos climáticos.
A iniciativa foi lançada no âmbito dos Diálogos Pró-Açaí, rede multissetorial que reúne organizações comunitárias, empresas, instituições de pesquisa, sociedade civil e setor público. A cadeia do açaí foi escolhida como primeiro caso de aplicação, dada sua relevância econômica, social, cultural e ambiental para a Amazônia.
O Adapta SocioBio surge como complemento a instrumentos já existentes de planejamento climático, dialogando com referências nacionais e internacionais. A iniciativa dialoga, por exemplo, com abordagens como o AdaptaCidades, que apoia municípios na construção de seus planos de adaptação climática. O diferencial do Adapta SocioBio está em descer uma camada metodológica para olhar especificamente para cadeias-territórios da sociobiodiversidade.
Cadeias como as de açaí, castanha, guaraná, cacau, pirarucu e babaçu não se organizam apenas por limites administrativos, mas por redes complexas que conectam territórios, atores e sistemas produtivos.
A ferramenta propõe apoiar a construção de cenários climáticos, o mapeamento de riscos e capacidades, a cocriação de soluções e a definição de rotas de adaptação para diferentes atores.
“O Adapta SocioBio não pretende substituir instrumentos existentes, mas contribuir com uma lente complementar voltada às cadeias da sociobiodiversidade e suas relações com os territórios. Por isso, é fundamental a elaboração de instrumentos didáticos que ajudem diferentes atores a transformar riscos climáticos em rotas concretas de adaptação”, destacou Luís Fernando Iozzi, diretor de projetos e cofundador do Instituto Terroá.
Cadeia do açaí e mudanças climáticas: impactos e caminhos de adaptação
A apresentação também contou com a participação da coordenadora de projetos do Instituto Terroá, Pollyanna Coelho, que trouxe elementos sobre os impactos das mudanças climáticas na cadeia de valor do açaí e sobre o acúmulo dos Diálogos Pró-Açaí na sistematização de desafios, riscos e recomendações para o setor. Desde sua criação, a rede vem contribuindo com diagnósticos, escutas, publicações e recomendações voltadas à sustentabilidade da cadeia, envolvendo diferentes segmentos e territórios da Amazônia.
“A adaptação climática da cadeia do açaí precisa partir da realidade dos territórios. Os impactos já aparecem na produção, na renda das famílias, na logística, na qualidade do fruto e na segurança alimentar. O desafio agora é transformar esse conhecimento acumulado em ações coordenadas, capazes de fortalecer comunidades, organizações produtivas, políticas públicas, pesquisa e mercado.”
Esse acúmulo inclui a produção de recomendações setorializadas para a cadeia do açaí e, mais recentemente, o lançamento de um policy brief sobre mudanças climáticas e a cadeia do açaí, apresentado durante a COP30 em Belém. O documento aprofunda a discussão sobre os impactos climáticos já percebidos por comunidades, organizações produtivas e demais atores da cadeia, além de apontar caminhos para fortalecer sua resiliência.
Próximos passos para fortalecer a adaptação climática
A primeira versão do Adapta SocioBio está estruturada em cinco etapas: construção de cenários, mapeamento de riscos e capacidades, cocriação de respostas, consolidação de bases para planos locais e definição de rotas de adaptação por ator.
Para o Instituto Terroá, o lançamento representa uma base inicial a ser aprimorada de forma colaborativa, com potencial de apoiar diferentes cadeias da sociobiodiversidade na construção de planos, projetos, políticas públicas e agendas de adaptação climática.
Como próximos passos, o Instituto Terroá e os Diálogos Pró-Açaí pretendem sistematizar as contribuições recebidas e avançar no desenvolvimento metodológico da ferramenta, com foco na aplicação na cadeia do açaí.
Organizações, instituições públicas, centros de pesquisa, financiadores e empresas interessadas em colaborar podem entrar em contato com o Instituto Terroá e a secretaria executiva dos Diálogos Pró-Açaí.