Aos 53 anos, Edna Brito transforma mandioca em farinha ao lado da família, no sudeste do Pará, em São João do Araguaia. Sua rotina começa cedo e carrega o peso e o valor de um saber que atravessa gerações. Sem equipamentos, sem estrutura, sem uma casa de farinha adequada, tudo depende das próprias mãos: a mandioca é colocada de molho, ralada manualmente, prensada com esforço e torrada com paciência. Um processo longo, exigente e profundamente enraizado na vida de quem vive da terra há duas décadas.
Esse trabalho, muitas vezes invisível, sustenta muito mais do que uma família. Produtores como dona Edna, que mantêm a produção de forma artesanal e familiar, são a base de uma das cadeias produtivas mais importantes da região — ainda que pouco reconhecida. O Pará lidera a cultura de mandioca no Brasil, em uma série histórica de 1990 – 2017, segundo dados da Embrapa. No Estado, a mandioca movimenta cerca de R$ 7 bilhões por ano em Valor Bruto da Produção (VBP). Ainda assim, apenas R$ 10 milhões entram no sistema formal da economia. É o que revela os dados do Relatório Técnico Preliminar: Análise da Bioeconomia da Sociobiodiversidade no Estado do Pará, elaborado pela Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia, coordenada pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) em parceria com universidades federais do Pará
A diferença entre esses números não é estatística — é humana. Tem rosto, história e território. São milhares de vidas como a de Edna, que produzem, resistem e sustentam uma economia inteira, mesmo à margem dela. Foi ao conhecer o projeto Co-Labora, no âmbito do programa Paricá, que dona Edna enxergou, pela primeira vez, um novo caminho possível.
Edna e mais 20 produtores rurais da região, saíram de Marabá com destino à Bragança e Tomé-Açu. Juntos percorreram 12h de viagem na estrada para conhecer experiências exitosas de produção de farinha e sistemas agroflorestais. Foi em Bragança, um dos 5 municípios no mundo que possuem o registro de Indicação Geográfica Farinha de Mandioca de Bragança, que Edna viu uma realidade diferente da sua. Diante de uma casa de farinha estruturada, com equipamentos adequados e organização, algo mudou. “É tudo muito diferente”, ela conta, admirada. E, de fato, era. Mas não era só sobre estrutura — era sobre dignidade, sobre tempo otimizado, sobre produzir melhor e com menos esforço. Era sobre futuro.

Durante o intercâmbio técnico, Edna encontrou outras histórias que refletem a sua — e também apontam novos caminhos. Produtores que começaram do mesmo jeito, de forma manual, mas que, com acesso a conhecimento e investimento, conseguiram transformar sua realidade. É o caso de Davi Júnior, produtor da casa de farinha Sabor de Bragança, que hoje trabalha com uma estrutura mais organizada e colhe os resultados dessa mudança. Mas nem sempre foi assim. A virada veio quando Davi ainda nem tinha casa de farinha, mas tinha a plantação e fazia o produto em parceria com outros produtores. Ao se deparar com os preços baixos e com a justificativa de que a farinha da região era “fraca”, ele passou a instigar órgãos e instituições que pudessem apoiá-lo no melhoramento da farinha. E aos poucos, com assistência técnica das entidades e com recursos próprios, construiu uma casa de farinha que hoje é referência na região. “A gente entendeu que não consegue trabalhar uma farinha de qualidade se não tiver um ambiente adequado. A partir daí que a gente começou a investir aqui na casa de farinha”, conta o empreendedor que focou na aquisição de maquinários para otimizar a produção e o resultado do investimento fez a diferença. Hoje, a farinha produzida no local possui certificações que atestam a qualidade e origem do produto, aumentando o seu valor no mercado.
Assim como a de Edna, a casa de farinha de seu Tomé Reis, localizada à beira da estrada em Bragança, também é familiar e reúne cerca de oito famílias, que se unem para manter1 viva essa cadeia produtiva essencial para a região. O espaço passou por uma reforma recente feita com investimentos públicos, que permite aos produtores locais fazer farinha com mais estrutura sem perder o senso de coletividade. Para o seu Tomé, é essa a união entre produtores, poder público e terceiro setor, que faz a diferença. “Pra mim é muito gratificante receber esses produtores aqui. Eu digo que eles estão no caminho certo. Com a união a gente vai mais longe”, declara.

Histórias como essas mostram que o desenvolvimento da bioeconomia amazônica não precisa ser criado — ele já existe. Nas mãos calejadas, no conhecimento tradicional, na relação profunda com o território. O que iniciativas como a Co-Labora fazem é conectar esse potencial a oportunidades reais — fortalecendo, estruturando e dando visibilidade a quem sempre sustentou essa economia. Porque, no fim, cada saco de farinha carrega muito mais do que alimento. Carrega história, resistência e sonhos de um futuro que já começou.
Sobre o Programa Paricá
Paricá – Territórios em Ação é um programa de impacto socioambiental que impulsiona o desenvolvimento sustentável na Amazônia Brasileira, fortalecendo cadeias produtivas, conservando a biodiversidade e promovendo inclusão e equidade.
Fruto da parceria entre Suzano, Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e Aliança Bioversity & CIAT, sua primeira edição atua em cinco municípios do sudeste do Pará: Abel Figueiredo, São João do Araguaia, Bom Jesus do Tocantins, Rondon do Pará e Dom Eliseu.
Em 2025, uma das iniciativas apoiadas no programa Paricá foi o projeto Co-Labora – Fomento a uma Economia Sustentável e Inclusiva, cuja implementação pelo Instituto Terroá foi concluída, enquanto o Paricá segue com a PPA no território.
- É uma estimativa realizada com o total da produção e médias de preço. É um indicador simples de desempenho da agropecuária, que representa um faturamento bruto desse segmento. ↩︎